terça-feira, 30 de outubro de 2012

Faz quase quatro anos que publiquei meu último texto neste blog - que não necessariamente é o que segue logo abaixo, já que apaguei quase todos deixando apenas os que mais significam pra mim, por uma razão ou outra - e, depois desse longo período, resolvo voltar a escrever. Muita coisa aconteceu nesse tempo. Pessoas entraram na minha vida, pessoas saíram da minha vida. Deixei lugares e conheci muitos outros novos. Enfim, não sou mais aquele que retratava neste blog, com o ardor do coração, coisas do meu então cotidiano. Deixei a poesia de lado. Deixei um pouco da música de lado. Deixei boa parte do meu cabelo de lado. Mas, em contraponto, ganhei algumas coisas. Tirando ''alguns muitos'' quilos a mais e certas vicissitudes, ganhei experiência de vida. Vi coisas. E ainda vejo coisas da vida. Pra quem não sabe, me tornei repórter cinematográfico de uma grande emissora de TV. Digo ''grande emissora de TV'' pois não pretendo dar nomes a pessoas ou citações. Os que me conhecem sabem onde trabalho e com que pessoas convivo, e isso basta. São três anos de carreira - entre estágio na faculdade e a atualidade - em um emprego que considero privilegiado. Privilegiado sim, apesar dos pesares. Mas não vou entrar em detalhes. E o que almejo aqui é contar um pouco da minha rotina, que não existe, já que muitas pessoas me sugeriram que o fizesse. Talvez seja interessante, talvez um pé no saco.. Talvez. 

Não tenho condições de contar coisas que aconteceram nesses últimos anos, infelizmente. Então começo por ontem, dia 29 de outubro de 2012. No fim de semana anterior um jovem fora assassinado em Cordovil por PMs que confundiram o som do estouro do pneu do carro dele com o de um tiro. Absurdos à parte, fui cobrir o enterro do rapaz. Fazia tempo que não ia a um enterro tão cheio. Digo isso pois, desde que comecei a trabalhar, ir a enterros tornou-se comum. O rapaz devia ser bastante querido. Muita gente chorando, revoltada. Lá pelas tantas, começa uma gritaria e logo ligo a câmera. Era a mãe do falecido, inconsolável, sendo carregada pra fora da capela. Trastornada, ela pedira, sem êxito, pra que não fechassem o caixão. Começa o cortejo. Um sol terrivelmente forte em Irajá, mas nada parecia se sobrepor à dor da perda. No momento de selar o túmulo, aplausos e clamores por justiça. Quando os gritos  diminuíram escuto a mãe implorar ''não fecha, não fecha! Ele é alérgico e vai ficar espirrando com o calor!'' Aquelas palavras socaram minha cabeça de tal maneira que chorei. Chorei mesmo não podendo me envolver com a notícia, mesmo tendo que continuar meu trabalho. Não sei se os policiais vão ficar presos por muito mais tempo. Não sei se a corporação passará por reciclagem, se receberá melhor treinamento. Mas sei que a perda daquela mãe nunca será suprida. E também sei que aquela cena nunca mais deixará minha mente.

domingo, 9 de novembro de 2008

Flâneur

A cidade do Rio de Janeiro é algo peculiar. Apesar de ser uma metrópole mundial, o Rio tem algo que tantas outras famosas não têm: o carioca. Indivíduo caricato e, ao mesmo tempo, de múltiplas faces. A começar pela origem "liquidificadorizada". É um mix índio-íbero-anglo-franco-germânico-africano. Algo raro por essência e por influência. E o lugar mais que perfeito para encontrar essa jóia de nossa terra é o berço da boemia, da malandragem, o lugar que faz Baudelaire revirar no túmulo por não ter conhecido e aproveitado. A Lapa.
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Estou longe de ser como o flâneur de Baudelaire, mas sofro muito de sua influência. Sou um observador nato. Não consigo controlar, é mais forte que eu. E deve ser por isso que quem me conhece fala que sou muito calado. Está aí o diagnóstico!! Sinto prazer em observar a figura e o comportamento alheios em todo tipo de situação (leitor, não me confunda com voyeur, por favor). O centro da cidade de dia e a Lapa à noite são laboratórios para pessoas como eu. Mas vou me focar, pelo menos neste post, apenas na Lapa.
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A quantidade de figuras multifacetadas encontradas naquele lugar é surpreendente!! É uma Babel plana que tem como monumento os arcos, cada um servindo como portal de entrada para diferentes tribos. A convergência é total e resulta numa única figura:
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jovem-velho-rico-pobre-mendigo-hetero-homo-bi-funk-samba-rock-soul-hip-hop-black-moda-alternativo-casual-from-Florida-moro-em-Marechal-fácil-difícil-charme-sexy-quanto-é-o-programa?-só-vim-pra-dançar-me-beija-logo-álcool-cigarro-drogas-coca-cola-primeira-vez-que-faço-isso-minha-cabeça-tá-rodando-tira-a-mão-do-meu-bolso-grita-polícia-te-levo-pra-casa-mais-cerveja-aqui-é-o-melhor-lugar-do-mundo!
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Depois de sair de lá dá para sentir - por mais que tenha vezes que não dê para lembrar no dia seguinte - a experiência boêmia que é freqüentar a Lapa. Acredito que quem já foi ao menos uma vez saiba do que estou falando. E se você, leitor, ainda não foi, ponha uma ida à Lapa na sua lista das "25 coisas que quero fazer antes de morrer (ou casar)".
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sábado, 3 de maio de 2008

Família

Nem sempre a família da gente é a família da gente. Não basta ter laços consangüínios ou documentos que comprovem a familiaridade. Um familiar pode ser qualquer pessoa, por mais distante geneticamente que ela seja de você. O que é preciso, de fato, é ser família. É um estado.

Sempre há aquela pessoa, parente ou não, que você vê uma vez a cada três meses, porém você a considera mais que a um irmão. E sempre há aquela pessoa que participa da mesma árvore genealógica que você, porém você não suporta passar míseros cinco minutos ao lado dela. Há parentes que mutuamente se tratam como "visitas", com distância que nem visitas e anfitriões teriam, e há parentes que na frente dos quais você desfila de cuecas e meias às 4h30 da madrugada comendo as sobras da pizza do dia anterior. Há pessoas que sabem mais sobre você em seis meses de convivência do que seus pais souberam em 25 anos. Há pessoas que te dão roupas de presente, e há pessoas que pegam suas roupas e ainda reclamam quando você as pega de volta. Há pessoas que te cumprimentam nas festas de fim de ano apenas pelo fato de terem o mesmo sobrenome que você, e há pessoas que, por mais que você só curta MPB e rock 80's, te chamam pro baile da Furacão porque fazem questão da sua companhia.

O que é uma família? Não sei.
Mas acredito que seja o conjunto de pessoas que você escolheu para fazer parte da sua vida. E você das delas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Bem-Vindos

Esse é um blog pra divulgar os textos que faço …
Espero que curtam!



- Não sei.
- Como assim, “não sei”?
- Como “como assim”? Eu simplesmente não sei. Não sei o que vou escrever.
- Mas você ganha para fazer isso. Escrever. Esse é o seu ofício. Além do mais, você faz isso, e muito bem feito, há anos.
- Eu sei. Mas dessa vez eu não consigo produzir nada. A idéia não vem de jeito nenhum. Fico horas ao computador e nada. Nada.
- Mas você já tentou ler alguma coisa, ouvir alguma coisa, ver alguma coisa para se inspirar?
- Inspiração não falta. O meu problema não é o dizer. O meu problema é dizer sobre o que. O que me falta é tema. Nos meus contos eu já falei de praticamente todas as coisas da vida: amor, traição, trabalho, dinheiro, comportamento, sexo, justiça, saúde, segurança, comida, bem-estar, mal-estar ... sei lá ... de tudo. Todas as coisas que cercam a minha vida e a vida dos que me cercam eu já retratei de alguma forma. Eu simplesmente não sei sobre o que escrever.

Silêncio

- Mas e ai?
- O quê?
- Como vai ser? Sobre o que você vai escrever?
- Não sei! Isto está me deixando angustiado de tal forma que parece que vou explodir. NÃO SEI SOBRE O QUE ESCREVER!!!
- Não adianta, você vai ter que escrever alguma coisa, nem que seja sobre a falta do que escrever.
- É por isso que eu te amo!